Lula diz que cobrará o Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra no Irã, gesto que recoloca o Brasil no centro do debate multilateral em meio a uma crise de alto risco regional. Ao apontar o órgão máximo da segurança internacional, o presidente explora um flanco conhecido: a paralisia decisória diante de vetos e agendas concorrentes das potências, exatamente o que já marcou a inação no caso de Gaza em 2023. A sinalização é dupla. Externamente, busca-se pressionar por cessar-fogo, proteção de civis e abertura humanitária, reafirmando o multilateralismo e a solução pacífica de controvérsias previstos no Artigo 4º da Constituição. Internamente, o Planalto tenta mostrar protagonismo responsável, calibrando princípios tradicionais do Itamaraty com um realismo atento aos impactos econômicos e de segurança que a escalada pode produzir.

Nesse movimento, Lula retoma uma linhagem diplomática que combina defesa do direito internacional com crítica à arquitetura pós-Segunda Guerra, considerada anacrônica. O Conselho de Segurança da ONU permanece vulnerável ao impasse entre membros permanentes, o que alimenta a agenda brasileira de reforma e ampliação, um pleito antigo em coalizões como G4 e IBAS. A novidade é o tabuleiro de 2026: com o Irã hoje integrante dos BRICS, Brasília precisa demonstrar que proximidade no Sul Global não significa condescendência com violações, mas tampouco adesão a sanções unilaterais. O equilíbrio passa por iniciativas de mediação, convocação de reuniões de emergência e desenho de resoluções viáveis, ainda que sujeitas a vetos, para criar custos diplomáticos à inação e organizar corredores humanitários e mecanismos de monitoramento.

As repercussões tocam também a economia política doméstica. O risco de interrupção logística no Golfo Pérsico pressiona o petróleo e, por tabela, combustíveis, fretes e alimentos, com potencial de reacender a inflação e tensionar a política de juros. O Brasil mantém comércio relevante com Teerã, de grãos a insumos, e uma crise prolongada afetaria exportadores, fertilizantes e a taxa de câmbio. Por isso, a cobrança ao Conselho tem efeito duplo: cria narrativa internacional de responsabilidade e oferece, no front interno, um antídoto preventivo contra críticas da oposição, que costuma associar a diplomacia petista à complacência com regimes autoritários. A chancelaria, por sua vez, tenta transformar princípios, não intervenção, solução pacífica, defesa de civis, em propostas operacionalizáveis, passíveis de angariar maioria na Assembleia-Geral e constranger vetos no Conselho.

Ao anunciar que cobrará o Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra no Irã, Lula recoloca a diplomacia brasileira no terreno em que ela é mais eficaz: construir pontes, reduzir incentivos à escalada e dar forma normativa à pressão por cessar-fogo e proteção de civis. A estratégia procura compatibilizar três camadas: o compromisso constitucional com a paz, a ambição de reformar a governança global e a urgência de blindar a economia nacional de choques externos. O sucesso dependerá da capacidade de Brasília em converter discurso em coalizões e em articular, com parceiros do Sul e do Norte, um pacote mínimo — trégua monitorada, acesso humanitário e retomada de canais diplomáticos. Sem isso, a cobrança será só retórica; com isso, pode abrir uma fresta para descompressão real.